quinta-feira, 3 de julho de 2014

Gosto de café amargo

Hoje de manhã, bebi um café amargo. Foi tão difícil de engolir quanto à verdade nua e crua. Corrói pelo nosso corpo e se entranha, estranha. O gosto é amargo e viciante. Quem prova café não gosta de mentiras. Palavras deitam-se e rolam. Mentira é o açúcar que adoça, vicia, mas não sacia.
                Pela janela o sol refletia um instante de horror. O sol tinha gosto de café amargo para quem se escondia. Aprisionava os engravatados, encoleirava os cães e punham um sorriso amarelo em meninos de escola. A felicidade é amarga.
                Minutos de solidão a cada segundo que o relógio marcava. Cada momento de felicidade era instantâneo, como um café amargo.
                A desilusão aparecia em cada coração partido. A morte aproximava-se em cada leito vazio. Não se pede mais por um socorro. Uma quinta sofrida, como uma manhã chuvosa, como um café amargo.

                Cada pedido de esmola é um grito de socorro. Um grito que não vemos. Desloca-se pelo vento e são ignorados por cada um que carrega dentro de si o gosto do café amargo.

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