Hoje de manhã, bebi um café
amargo. Foi tão difícil de engolir quanto à verdade nua e crua. Corrói pelo
nosso corpo e se entranha, estranha. O gosto é amargo e viciante. Quem prova
café não gosta de mentiras. Palavras deitam-se e rolam. Mentira é o açúcar que
adoça, vicia, mas não sacia.
Pela
janela o sol refletia um instante de horror. O sol tinha gosto de café amargo
para quem se escondia. Aprisionava os engravatados, encoleirava os cães e
punham um sorriso amarelo em meninos de escola. A felicidade é amarga.
Minutos
de solidão a cada segundo que o relógio marcava. Cada momento de felicidade era
instantâneo, como um café amargo.
A
desilusão aparecia em cada coração partido. A morte aproximava-se em cada leito
vazio. Não se pede mais por um socorro. Uma quinta sofrida, como uma manhã
chuvosa, como um café amargo.
Cada
pedido de esmola é um grito de socorro. Um grito que não vemos. Desloca-se pelo
vento e são ignorados por cada um que carrega dentro de si o gosto do café
amargo.
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